domingo, 4 de janeiro de 2015

O CRÍTICO



A comédia romântica O Crítico (Argentina) com direção de Hernán Guerschuny é uma paródia inteligente, leve mas com certa sofisticação, com metalinguagem que homenageia o cinema e, em especial, o personagem do crítico da sétima arte, de forma satírica. Observamos através dos diálogos a criação do cinema, o trabalho dos roteiristas, produtores e principalmente dos críticos, que muitas vezes vai de encontro ao desejo da indústria cinematográfica e até do público.
Victor Tellez (Rafael Spregelburd) é um respeitado crítico de cinema solitário, um cara mal humorado, pessimista, arrogante, que só acredita na sétima arte do passado, acha que ¨o cinema já morreu¨ pois só  visa  fins comerciais e odeia comédias românticas com seus clichês conhecidos e na opinião dele, cansativos. Simpático e exagerado, é o tipo de pessoa que coloca a razão sempre acima da emoção, mas termina caindo na sua própria armadilha.
Ao procurar um apartamento para alugar, Victor conhece a bela turista Sofia (Dolores Fonzi), que abalará suas convicções. Por estar apaixonado, Tellez  passará por situações que ele próprio se sentirá ludibriado e irá contra o que realmente acredita.
Os atores Rafael Spregelburd e Dolores Fonzi como Victor Tellez e Sofia têm uma boa atuação e surpreende a beleza de Dolores, lembra a atriz Ana Paulo Arósio.
Irônico e satírico, mostra o pedestal que certos críticos se colocam e como sofrem os que dependem da crítica, que pode erguer ou derrubar uma película. Como diz um jovem produtor a Tellez: ¨Demorei 3 anos para executar o meu filme e bastou 3 minutos para você destruí-lo¨.
Com mensagens criativas e românticas, mostra que certos clichês têm apenas o objetivo comercial e oprimem a mente da plateia.Só que a vida também é feita de clichês, e quando a gente se apaixona, haja momentos bobos e belos. A cena final é significativa e coerente com o filme.
Filme que agradará em cheio os cinéfilos e os que trabalham neste meio cultural!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

DIVÃ


Baseado na peça teatral homônima, o filme Divã (2009) é uma comédia dramática bem elaborada, com direção do cineasta José Alvarenga Jr.
Conta a história de Mercedes (Lília Cabral), uma mulher de meia idade que se considera realizada e feliz com seu casamento duradouro e filhos já criados, e uma dia, por curiosidade, decide entrar em um consultório de um psiquiatra. Ao decidir fazer psicoterapia, descobre que sua vida não é o mar de rosa que pensava ser, o casamento já não a satisfaz, os filhos já criando autonomia, percebe que pouco fez por si, para se sentir segura e feliz. 
Com um bom roteiro, ideia inteligente e o excelente trabalho da atriz Lília Cabral, esta comédia revela-se tocante, envolvente, engraçada, sem apelar ou forçar barras.
É interessante o foco da câmera diretamente na atriz Lília Cabral quando em psicanálise, de forma soberba ela consegue segurar o filme, que com certeza não seria o mesmo sem sua performance impecável. Merecidamente ganhou o Prêmio do Cinema Brasileiro/ 2010 de Melhor Atriz.
Os outros atores desta comédia como José Mayer, Cauã Reymond, Reynaldo Gianecchini têm uma boa interpretação, em papeis menores, pois realmente o que importa no filme é mostrar Mercedes enfrentando os seus demônios, que nem ela mesma sabia existir.
Filme leve, divertido, tocante, com certeza há uma identificação das mulheres em geral, com ensinamentos certeiros. Que as mulheres em todas as fases da vida, principalmente na meia idade, têm que aprender a enfrentar suas questões pessoais, correr atrás do que se foi e tentar mudar o que puder, um momento de descoberta que pode levar a mudanças em todos os sentidos. Recomeçar sempre é possível, na vida os acontecimentos são inevitáveis, o importante é a aprendizagem e o que fazer para mudar o que muitas vezes se prefere esconder por baixo do tapete da sala.

domingo, 28 de dezembro de 2014

ELSA & FRED




É possível se apaixonar e viver intensamente o amor em qualquer idade? Esta é a premissa do filme Elsa & Fred (EUA), direção de Michael Radford, uma comédia romântica com uma história de amor na terceira idade. Nova versão deste filme que em 2005 foi lançado com grande sucesso, uma produção Argentina.
Fred Barcroft ( Christopher Plummer) é um viúvo na faixa dos 80 anos, que se muda para um apartamento por imposição da filha Lydia (Márcia Gay Harden) e do genro. Fred é um idoso mal humorado, hipocondríaco, fechado em seu mundo, pessimista e que só enxerga na velhice uma fase desagradável da sua vida, que o leva a pensar na proximidade da morte. Nesta mudança de domicílio, Fred conhece a sua vizinha Elsa (Shirley MacLaine), uma senhora que é o oposto dele, a alegria personificada, dinâmica, imprevisível, envolvente, que sorve todos os momentos da sua vida e apesar dos 80 anos, se sente uma garota cheia de sonhos e vive a cometer loucuras em prol de viver de forma intensa. O sonho de Elsa é ir a Roma para vivenciar a cena do filme ¨A Doce Vida¨de Fellini, onde Anita Ekberg e Marcello Mastroianni protagonizaram a antológica cena na praça da ¨Fontana di Trevi¨. Enfim, Elsa é um verdadeiro livro de auto ajuda para Fred.
Duas pessoas completamente opostas em temperamento e vivências de vida que se encontram na fase do outono tardio e apesar da idade, se apaixonam e desejam viver intensamente este momento e aproveitar esta oportunidade que a vida lhes oferece.
Uma comédia romântica meiga e divertida, uma bela história de amor com fundo melancólico.  Emoção é a palavra exata no olhar deste casal apaixonado. Reaprender a sorrir, a enxergar encanto no final da vida, com urgência de viver; tema envolvente e encantador com ar melancólico.
Os atores Shirley MacLaine e Christopher Plummer têm uma ótima química e atuação exemplar, com boa narrativa e fotografia e roteiro coerente.
Fica a reflexão sobre o tempo do amor, será que a paixão é privilégio só dos jovens? Existe preconceito pois a idade avançada leva a pensar na proximidade da morte e os subterfúgios que cada pessoa assimila diante deste fato. Pessoas envelhecem mas continuam vivas e ardentes por dentro e nunca é tarde para amar e transformar sonhos em realidade. Enfim, ¨não importa como vivemos, mas a forma como resolvemos viver¨. Fica esta grande lição de vida.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

UMA LONGA VIAGEM


Produção de Jonathan Teplitzky, o filme Uma Longa Viagem (Austrália/ Reino Unido) é um drama baseado na obra autobiográfica homônima de autoria de Eric Lomax.
Através de uma doce e bonita história de amor conhecemos a vida de Eric Lomax (Colin Firth), um veterano de guerra apaixonado por trens e traumatizado com as barbáries sofrida nas mãos dos japoneses.
Segunda Guerra Mundial, Eric Lomax era um jovem soldado britânico que, junto com seus companheiros de batalha, foi capturado pelo exército japonês em Singapura, e tratados como verdadeiros escravos na Tailândia na construção da Ferrovia da Birmânia, conhecida como ¨Caminho de Ferro da Morte¨.  Através de flashbacks assistimos o jovem Eric Lomax (Jeremy Irvine) em um campo de concentração japonês, onde foi torturado quase até a morte, gerando um trauma tão grande, que 40 anos depois tornou-se um homem reservado e fechado dentro do seu mundo e dos seus fantasmas. Em uma de suas viagens de trem, Lomax conhece Patti (Nicole Kidman), se apaixonam perdidamente e logo se casam.
 Ao descobrir através de seu amigo e companheiro de guerra Finlay (Stellan Skarsgard) que seu algoz Takashi Nagase  estava vivo e trabalhava  como guia no mesmo local  do campo de concentração, Lomax vai ao encontro do seu torturador que deixou marcas cruéis na sua alma,  possuído por sede de vingança.
Será que Eric Lomax sairá desta longa viagem saciado da sua vingança ou o encontro com seu algoz será sua redenção?
Drama profundo, comovente, uma história lenta que condiz com o enredo do filme. Voltado para mostrar fatos numa narrativa austera, um filme certinho, com cenários bem construídos e boa fotografia. Uma história com poder fascinante, imaginar que é baseado em história real e o final é incrível, coloca o revés da moeda, um acerto de contas do passado.
Uma mensagem sobre o poder do amor,  se é possível perdoar alguém que tanto mal te fez e dos traumas dos que participaram dos horrores da segunda guerra mundial.



domingo, 21 de dezembro de 2014

HOMENS, MULHERES E CRIANÇAS



O filme Homens, Mulheres e Filhos (EUA) é uma comédia dramática que fala de relações humanas na era atual, em que a internet praticamente rege e dá peso considerável ao universo e às vidas das pessoas. Realização do diretor Jason Reitman, conhecido por ótimos filmes como Juno e Amor sem Escalas.
Baseado no livro homônimo de Chad Kuttgen, com um tema atual e interessante, um alerta para pais e filhos. O on-line virou uma epidemia social e influencia a vida da maioria das pessoas, principalmente dos jovens. Troca-se o real pelo virtual e em muitos casos o exagero, a falta de limite interfere na vida das pessoas e até traz danos às relações em geral. O objetivo do filme é justamente mostrar esta era digital, o papel da internet neste século, a ligação e interferência do virtual na vida das pessoas, trocando o tete-a-tete pelo virtual.
São repassadas várias situações para a plateia, como um casal em crise (o ator Adam Sandler em papel sério, interessante e ele dá conta do recado); uma adolescente com anorexia e que quer perder a virgindade com o galã da escola; um adolescente viciado em sexo virtual; um filho deprimido (Ansel Elgort, para suspiro da galera jovem) cuja mãe abandonou o lar; uma mãe controladora (Jennifer Garner) que vigia todos os sites e e-mails de sua filha. Histórias que se cruzam pois os adolescentes estudam no mesmo colégio e vivem neste século regido pela internet.
Filme com tema super interessante e atual que nos leva a repensar o poder do mundo virtual nas relações humanas e a dificuldade de diálogo dos pais, que muitas vezes não sabem como agir neste emaranhado de rede digital. Mas peca pela lentidão, um roteiro sem emoção, uma pulsação em compasso lento e alguns descompassos; falta dinamismo e empolgação e pouco convence diante de assunto empolgante e tão atual.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

MOMMY



Este jovem e genial cineasta Xavier Dolan, conhecido por filmes com Eu Matei Minha Mãe, nos presenteia com este excelente drama Mommy (Canadá), como diretor, produtor e roteirista.
Filme ficcional, passado em 2015 quando é promulgada uma lei no Canadá, permitindo que pais com filhos problemáticos tivessem a possibilidade de interná-los em hospital público.
Conta a suposta história de Diane Després, vulgo Die (Anne Dorval), mãe do adolescente Steve (Antoine-Olivier Pilon), um rapaz com TDAH ( Distúrbio de déficit de atenção com Hiperatividade), um transtorno neurobiológico que aparece na infância e acompanha o indivíduo por toda vida, que mistura desatenção, inquietude motora e mental e impulsividade, podendo levar à violência em alguns casos. Envolvido em furtos e outros atos criminosos, Steve precisa de apoio terapêutico e Diane decide cuidar sozinha do seu filho,  apesar de suas dificuldades emocionais e financeiras. Termina contando com a ajuda da nova  vizinha Kyla(Suzanne Clément), que é professora.  Kyla envolve-se com mãe e filho, mas ela também tem questões emocionais a resolver. Enfim, três pessoas que precisam de ajuda terapêutica tentando se ajudar e se equilibrar.
Um drama profundo, impactante e excepcionalmente excessivo que sai do rotineiro; um conjunto de ações, cores e músicas com atuações excelentes deste trio de atores com personagens complexos, desestruturados em situações extremistas, modulando o tempo inteiro alegria versus dor.
Roteiro bem esquemático, fotografia absorvente, imagine a tela em formato 1:1 (instagram) que nos dá a  sensação de aprisionamento e fobia, claustrofóbico em resolver situações. De repente muda-se o formato, levando a plateia à sensação de liberdade, um abrir para a vida e seus problemas, momento mágico. Trilha sonora excepcional, atentem-se à cena da cozinha quando eles dançam ao som da música de Celina Dion.
Filme com cenas fortes e impactantes que vão direto ao âmago da plateia e nos leva a refletir sobre relações e a falta de limite e equilíbrio entre pessoas, como esta mãe Die que por amor decide assumir um filho problemático, mas sem ter a devida capacidade emocional desta sobrecarga em sua vida. O amor existe mas as dificuldades testam este sentimento o tempo todo.
Filme lindo e incomodativo, um verdadeiro soco no estômago, que ficará no nosso pensamento e nos levará à reflexão sobre nossas relações e limitações.
Premio do Júri do Festival de Cannes 2014; escolhido para representar o Canadá no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2015.



sábado, 13 de dezembro de 2014

BOYHOOD - DA INFÂNCIA À jUVENTUDE




Boyhood - da Infância à Juventude (EUA), direção do cineasta Richard Linklater (da trilogia Antes do Amanhecer), filme com proposta diferenciada, uma ideia inovadora para o cinema. Em 2002 o diretor iniciou as filmagens dos personagens desta história durante 12 anos, centrado na figura do menino  Mason, da sua infância até a sua juventude, um projeto ousado e arriscado com um final digno de obra de arte. Por sinal, Ellar Coltrane tem ótima atuação no papel do garoto Mason,  um investimento que deu certo.
Direção e roteiro perfeito, natural e dramático quando necessário, trilha sonora espetacular, músicas de uma década, de Paul McCartney a Lady Gaga; fotografia simples e natural, sem efeitos visuais; diálogos condizentes, mesclando drama com cenas divertidas.
Filho de pais divorciados, Mason (Ellar Coltrane) vive com sua mãe Olívia (Patricia Arquette) e sua irmã Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor). Mason tem que aprender a lidar com os namoros e casamentos de sua mãe e mudanças constantes de cidade, e também a ausência do pai Sr. Mason ( Ethan Hawle), uma pessoa inconstante mas que procura sempre que possível seus filhos e deseja acompanhar seu desenvolvimento.
É incrível observar o tempo passar e o efeito real da idade e maturidade dos integrantes do filme, em um cotidiano normal de qualquer ser humano. Em especial de Mason e sua irmã Samantha é de impressionar, devido às mudanças físicas e emocionais nesta fase da vida. Em determinado momento a gente imagina que tudo aquilo realmente aconteceu, pela naturalidade e simplicidade, eis a fórmula perfeita deste projeto experimental  inédito no cinema.
É o tempo que passa com seus problemas, alegrias, frustrações, erros e acertos, como na vida de qualquer pessoa. Delicado e sensível mas sem apelos, que nos leva a refletir sobre a vida cheia de altos e baixos. O filme é a própria representação da vida, com seu fluxo e energia própria, com toda sua beleza, dificuldades e esplendor.
No final é como uma simbiose entre o real e o imaginário sobre o movimento da vida corriqueira e o crescimento do menino Mason. Observar a passagem do tempo nos rostos e atitudes da família  Mason, nos lembra o nosso próprio tempo e o que dele fizemos.
Um experimento intenso, perene e extraordinário dentro da própria simplicidade e cumplicidade da vida como ela é,  pelas luzes da sétima arte, de forma natural e sem maquiagem.